Aproveito para sugerir a visita a dois blogs superlegais, de autoria de minha filhota Maria Eugênia, que tem enorme talento para a música e literatura. Puxada à mãe, Léa, meu amorzão.
para quem gosta de ler - http://livrariaeletronica.blogspot.com/
para quem adora tocar - http://partituraeletronica.blogspot.com/
domingo, 10 de maio de 2009
Frase

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. (...) Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável."
(Freud, O Mal Estar na Civilização)
(Freud, O Mal Estar na Civilização)
sábado, 2 de maio de 2009
Fantasma
Olhamo-nos e ela continuava linda. Não sei se apenas pensei ou se cheguei a dizer que lamentava os desencontros do passado, as palavras mal empregadas, os desatinos.
Também não sei se nos comunicávamos por palavras ou por pensamentos. Estávamos em um local que parecia os arredores de uma pequena cidade. Subimos num carro, ela dirigindo. Fiz uma piada. Se um guarda pára a gente, não vai enxergar ninguém e não vou ter como explicar isso. E rimos.
Era tarde, estávamos numa avenida. E nos distanciávamos do local de partida. Ela tinha necessidade de retornar. Fizemos o contorno e nos preparávamos para voltar, quando pedi que parasse o carro. Precisávamos experimentar. Ela parecia ter suas dúvidas. E assim mesmo, contrariando tudo, nos beijamos repetidas vezes. E, sim. Era possível sentir o contato, os lábios, as línguas, e era bom.
Mas precisávamos voltar. Havia pressa. Ela acordou. Olhou para o travesseiro ao lado, intato. Uma lágrima brotou. Eu era apenas uma lembrança, finda, desencarnada a visitar-lhe os sonhos.
Também não sei se nos comunicávamos por palavras ou por pensamentos. Estávamos em um local que parecia os arredores de uma pequena cidade. Subimos num carro, ela dirigindo. Fiz uma piada. Se um guarda pára a gente, não vai enxergar ninguém e não vou ter como explicar isso. E rimos.
Era tarde, estávamos numa avenida. E nos distanciávamos do local de partida. Ela tinha necessidade de retornar. Fizemos o contorno e nos preparávamos para voltar, quando pedi que parasse o carro. Precisávamos experimentar. Ela parecia ter suas dúvidas. E assim mesmo, contrariando tudo, nos beijamos repetidas vezes. E, sim. Era possível sentir o contato, os lábios, as línguas, e era bom.
Mas precisávamos voltar. Havia pressa. Ela acordou. Olhou para o travesseiro ao lado, intato. Uma lágrima brotou. Eu era apenas uma lembrança, finda, desencarnada a visitar-lhe os sonhos.
Frase

"De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência."
(Millôr Fernandes, humorista, escritor, pensador)
Zé Nabuco lança 3º livro em Jaú
O escritor e artista plástico José Thomaz Nabuco de Araújo Filho, 50 anos, lança no dia 7 de maio, às 20h, no Espaço União Livraria, em Jaú, o livro Algumas Palavras, produção independente que traz poemas, ensaios e crônicas. O amor, a mulher e a amizade são abordados pelo autor de forma sensível e remetem as suas experiências e inter-relações com a vida.
Algumas Palavras, com 68 páginas, é a terceira obra literária de José Nabuco e deixa transparecer ao leitor toda a ternura do autor com as letras, com os sentimentos mais puros e simples, a evocar lembranças de um tempo menos pedregoso, no qual a lealdade não era apenas uma palavra dicionarizada; era presente.
O livro Algumas Palavras será vendido a R$ 15 e parte da renda será doada para a Casa da Criança. O Espaço União Livraria fica na Rua Campos Salles, 275.
sábado, 11 de abril de 2009
Taliscar

O pedreiro diz, assim, sem cerimônia, que antes de dar a massa iria taliscar a parede e só não fiquei com a face rubra porque pouca coisa me surpreende hoje em dia. Entretanto, asseguro que achei uma ousadia o bruto dizer aquilo na frente da minha mulher e pus-me a pensar se deveria simplesmente pedir-lhe satisfações ou emendar logo um gancho de direita.
Ocorre que estávamos sobre o mezanino e uma contenda àquela altura talvez não fosse prudente, sem contar que minha direita não é de um boxeur. Razões mais que suficientes para que procurasse desvendar o que, diacho, aquele sujeito havia dito, antes de tomar qualquer providência que assegurasse a defesa da moral e dos bons costumes na construção.
Ponderei que se o homem quisesse dar a massa isso era problema dele, posto que todos temos o livre arbítrio e vivo me policiando para desembaraçar-me de qualquer preconceito.
Mas aquela coisa de taliscar deixou-me totalmente intrigado. Reportou-me ao roqueiro Serguei, que certa feita admitiu publicamente que era pansexual e que havia mantido relação bíblica com uma árvore, algo meio mamífero-arbóreo, por assim dizer. E aquele pedreiro queria taliscar a parede, obra de alvenaria da minha casa! Desavergonhado!
Meu cérebro era uma ebulição. Tinha de fazer algo. O que pensaria minha mulher a meu respeito, se deixasse passar aquilo sem dizer palavra? Ensaiei mentalmente os golpes que aplicaria no sujeito: um soco no pescoço para obstruir-lhe a traquéia; um joelhaço nas partes baixas; com a sinistra acertar-lhe as têmporas, com a destra a ponta do queixo...
- O que você tem, Zé? – inquiriu minha cara-metade, com a voz doce costumeira. Tomei-a por um dos braços, para afastarmo-nos do pedreiro.
- A parede... esse sujeito quer taliscar e...bem...o que, afinal, ele quer dizer com isso?
Léa riu da minha inocência e da pouca intimidade com assuntos relacionados a construções. Pacientemente informou-me de maneira didática que os pedreiros costumam fixar pedaços de cerâmica na parede para que se possa dar a massa, de forma que fique tudo em nível e prumo da mesma espessura. Isso era taliscar.
Ocorre que estávamos sobre o mezanino e uma contenda àquela altura talvez não fosse prudente, sem contar que minha direita não é de um boxeur. Razões mais que suficientes para que procurasse desvendar o que, diacho, aquele sujeito havia dito, antes de tomar qualquer providência que assegurasse a defesa da moral e dos bons costumes na construção.
Ponderei que se o homem quisesse dar a massa isso era problema dele, posto que todos temos o livre arbítrio e vivo me policiando para desembaraçar-me de qualquer preconceito.
Mas aquela coisa de taliscar deixou-me totalmente intrigado. Reportou-me ao roqueiro Serguei, que certa feita admitiu publicamente que era pansexual e que havia mantido relação bíblica com uma árvore, algo meio mamífero-arbóreo, por assim dizer. E aquele pedreiro queria taliscar a parede, obra de alvenaria da minha casa! Desavergonhado!
Meu cérebro era uma ebulição. Tinha de fazer algo. O que pensaria minha mulher a meu respeito, se deixasse passar aquilo sem dizer palavra? Ensaiei mentalmente os golpes que aplicaria no sujeito: um soco no pescoço para obstruir-lhe a traquéia; um joelhaço nas partes baixas; com a sinistra acertar-lhe as têmporas, com a destra a ponta do queixo...
- O que você tem, Zé? – inquiriu minha cara-metade, com a voz doce costumeira. Tomei-a por um dos braços, para afastarmo-nos do pedreiro.
- A parede... esse sujeito quer taliscar e...bem...o que, afinal, ele quer dizer com isso?
Léa riu da minha inocência e da pouca intimidade com assuntos relacionados a construções. Pacientemente informou-me de maneira didática que os pedreiros costumam fixar pedaços de cerâmica na parede para que se possa dar a massa, de forma que fique tudo em nível e prumo da mesma espessura. Isso era taliscar.
Respirei aliviado. Não teria de me engalfinhar com ninguém.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Lei antifumo
O projeto de lei que veda o fumo em locais fechados em todo o Estado de São Paulo, aprovado dia 7 de abril pela Assembléia Legislativa, me empurra para a clandestinidade. Sou pela total desobediência civil.
Ara essa! Quando tomei conhecimento do teor do projeto, senti uma enorme vontade de soltar uma baforada das boas na careca lustrosa do José Serra, o governador. Para ver se lhe esquentava o cérebro.
A lei é imbecil, representa um desrespeito ao direito de liberdade e, portanto, inconstitucional. Pode abrir precedentes drásticos. Se a população aceitar passiva, não seria surpresa se surgir algum governador, careca ou não, querendo controlar até nossas idas ao banheiro.
O insuspeito jurista Ives Gandra Martins, que também é poeta de primeira linha, afirma que a lei é inconstitucional. Segundo ele, invade a competência da União ao legislar assunto de saúde pública e interfere na prerrogativa dos municípios de formular suas próprias legislações sobre o tema.
Uma coisa é certa: se realmente a lei vigorar como está seu texto, hei de encontrar botiquineiros que estejam dispostos, como eu, a ignorá-la olimpicamente.
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